Saudade
Quando ainda jovem, ouvia os mais velhos dizerem que a palavra "saudade" não tinha tradução em nenhum idioma, que o máximo que conseguiam dizer é que estavam sentindo falta de algo ou alguém. Confesso que ainda não consegui comprovar se os estrangeiros não têm realmente uma palavra com esse significado.
Hoje, tenho saudades da terra onde nasci, pois muito em breve estarei de volta, mas para passar poucos dias. Já aprendi que "matar a saudade" é uma figura de linguagem e que a saudade não pode ser morta. E acredito que ninguém quer matá-la, pois na maioria das vezes sentimos saudades de coisas boas.
Sinto saudades do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora; do padre Lino, que pensava que sabia tocar piston; do padre Guerino, que nos apoiava para jogar basquete e tentar ganhar do time do estadual; dos filmes depois da meia-noite, no cinema do colégio; do nosso técnico de basquete, o professor Benites, que, mesmo que eu jogasse muito mal, não me tirava do time, para a tristeza dos meus parceiros.
Sinto saudades dos treinos de basquete, para a seleção da cidade, na praça de esportes. Do capote que levamos dos uruguaios de 90 a 18. Das viagens para jogar em outras cidades, onde cantávamos a viagem toda e perdíamos mais do que ganhávamos. Da Rua 7 de Setembro, aos domingos à noite, quando eu sonhava poder dirigir para cima e para baixo, mesmo não tendo idade para ter carteira de motorista. Da panela do "candal" (não sei se é assim que se escreve), que atravessávamos para encurtar caminho na época da seca.
Sinto saudades das preliminares dos Ba-Guás, infanto-juvenil, nos quais ganhávamos quase sempre do time do Cirinho. Talvez as concentrações na casa do "seu" Verano Severo fizessem toda a diferença. Nunca consegui entender por que a maioria conseguia ser vermelho e branco, do glorioso Guarany de Bagé, e mudar totalmente as cores na capital gaúcha, torcendo para o Grêmio Porto-Alegrense. Dos treinos no estádio Estrela Dalva, aonde íamos quase todas as tardes, pois não tínhamos muito que fazer. Tanto na Pedra Moura como no estádio do Guarany, podia-se ouvir o som do chute na bola.
Sinto saudades dos programas na rádio pela manhã, nos quais fazíamos pré-gravações da história do Rio Grande do Sul. Das gravações no estádio Estrela Dalva e Pedra Moura, com um gravador "geloso" de fita de rolo, com direito a comentários e entrevistas com os jogadores. Das peladas no tênis clube, no tempo em que o "Gordo" ainda estava entre nós e jogava futebol. Das viagens a Melo para desfile da banda e jogo de futebol com os nossos vizinhos.
Sinto saudades da organização do bloco de carnaval "Gente Bem", quando trouxemos em um Chevette cor de vinho os primeiros instrumentos diretamente da capital gaúcha. Quase não havia espaço para os passageiros. Dos bailes de carnaval no clube comercial, onde tomei o grande porre da minha vida. Das brigas pela manhã, depois dos bailes na frente do comercial, onde todos ficavam aguardando para ver quem iria brigar, e eram sempre os mesmos protagonistas.
Acho que todas essas coisas me vêm à cabeça porque vou passar alguns dias na Rainha da Fronteira, e as lembranças que estavam acomodadas no fundo do baú estão vindo à tona. Alguém já disse que o melhor da festa é esperar por ela. Confesso não concordar com essa afirmativa, pois gostaria de já estar revivendo as lembranças na minha terra natal. Eu sei que nenhuma das minhas lembranças poderá tornar-se realidade novamente, mas ter vivenciado e possuir a lembrança já é mais que suficiente. Somos o produto de tudo que vivemos, somos o conjunto de todas as nossas experiências e lembranças. Frases e cantigas me vêm à mente, e não posso deixar de lembrar a estrofe de uma canção que diz: "Não permita Deus que eu morra sem que eu volte ao pago onde nasci". Não tenho ciúmes de nenhuma cidade e respeito todas igualmente, mas gostaria de usar as frases do Alegrete para a minha terra: "Não me perguntes onde fica a minha Bagé, segue o rumo do teu próprio coração".
A maior de todas as saudades é a dos amigos que, como eu, estão ficando velhos e sábios, porém não os vejo mais todos os dias...
Fonte: É escritor
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