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INDÓCEIS “PÁSSAROS” DE UMA INFÂNCIA MACEYORKINA

11:04 - 10/08/2011 Ricardo Maia*

Exercendo o nem sempre fiel poder de recordar, para produzir reminiscências de sua infância na capital alagoana, o artista plástico Fernando Pontes (1962-     ) diz que “ama” Maceió... Mas, desde há muito, esta sempre a deixá-la. Ele denuncia o “abandono” desta cidade, mas, depois, evade-se dela para se ausentar por longo período. Não é por acaso que a sua oitava exposição individual, que ora acontece na Pinacoteca Universitária da UFAL, marque mais um retorno “temporário” do artista à sua cidade natal. (4)

Tal atitude ambivalente explica, lamentavelmente, porque das cinco personalidades do mundo artístico que são “Referências e influências na mente do criador de Pássaros” – apenas duas são brasileiras, mas nenhuma de Alagoas: Hélio Oiticica, o artista carioca dos “Parangolés”; e Vik Muniz, um gaucho que faz arte com lixo. Laure Anderson, Nam June Paik e Bruce Nauman são os outros três nomes estrangeiros dessa pentíade de egos ideais, ou seja, “O top 5 do artista”. (4)

Em meio a estas figuras de sucesso, a imagem de Maceió que se configura para Fernando Pontes (e, por conseguinte, para o público admirador de sua vida-obra) é a de um riacho putrefato chamado “Salgadinho”. Ou, ainda, a de uma cidade destruída, pois sem planejamento urbano, com seus restos roubados: “Onde está o Mijãozinho?”, pergunta-nos o artista, em sua mostra, nos fazendo questionar sobre o sumiço de uma singular escultura de bronze que havia, desde há muito e até pouco tempo, na Praça Sinimbu – hoje ainda nostálgica, porém abandonada. (4)

Para além dessa visão apocalíptica do “Paraíso das Águas” (Maceió), o mais questionável, no entanto, é talvez o fato de que Fernando não se pergunta, nem faz o espectador comum perguntar, pelo criador d’O Mijãozinho. Aliás, em sua exposição, Pontes não nos dá a menor indicação da autoria desta escultura pública tão popular em Maceió. Será porque seu autor é Lourenço Peixoto – um alagoano precursor e estimulador do modernismo na história, sempre esquecida, da arte em Alagoas? (2, 3 e 12)

Pelo sim e pelo não, ao que tudo indica na primeira sala da Pinacoteca, a figura emblemática do artista local, para Fernando, parece ser mesmo a do alagoano “de coração” Edmilson Mendes da Silva: um cantor cego e paraplégico do centro da cidade que, ao se repetir cotidianamente na escuridão sem fim, representando decerto a outridade radical de Pontes, vive quase a vida inteira como um penitente, sob rajadas de vento e de chuva, ou sob o sol inclemente, a entoar repentes urbanos para enunciar sua existência, e, assim, garantir a própria sobrevivência: “Meu Maceió, minha terra querida / Era cidade sorriso / Hoje é a cidade do lixo”... canta Edmilson: o perfeito artista solitário que tem o Calçadão do Comércio como seu palco a céu aberto. E, como seu público fiel de todos os dias úteis, transeuntes apressados e completamente indiferentes a ele e sua arte na maioria esmagadora (4).

É desse modo, como podemos pressupor, que, à revelia de Fernando Pontes, esta sua “exposição também serve como alerta [...] ao presente e às futuras gerações”, como mesmo afirma ele. (4) E isto enquanto o integra, charmosamente, ao elenco dos criativos diaspóricos da “terra dos marechais”. Tal elenco, aliás, constitui por razões diversas um quase-grupo de auto-exilados da Alagoas-artística que até já mereceu um longo e interessante artigo, do jornalismo cultural local, intitulado: “A diáspora de uma cultura incompreendida” (1).

A exposição, que tem caráter memorialista, se pretende também crítica do ponto de vista social. Mas partindo daí, torna-se, por sua vez, muito pouco autocrítica. Na certa, por isso, a visão que Fernando Pontes produz (ou reproduz?) da “cidade sorriso” – que nem sempre sorriu, nem sorri, para seus artistas e intelectuais – se apresente embaçada de seu ponto de vista estético. O que vem a tornar Maceió, para ele e para nós, uma cidade quase invisível onde a verdadeira obra de arte é o próprio artista a produzir-se a partir daquela estética de si que é típica do narcisismo da cultura pós-modernista.

É nesse sentido que esse olhar embaçado do artista, dirigido à paisagem urbana local (refiro-me às fotos digitais tiradas por Fernando com o carro em movimento), é tão artisticamente contemporâneo quanto sintomático, pois que é indicativo de uma relação afetiva mais complicada que complexa com Alagoas ou mais histérica que histórica com Maceió. Contudo e sem sombra de dúvida, o trabalho conceitual de Fernando Pontes é sublime. Ou seja: “[...] um trabalho por amor a Maceió”, como ele próprio diz. (4) E este trabalho amoroso, que é exatamente aquele trabalho da memória, produz de fato subjetivo uma reflexão instigadora de muitos debates necessários, sobretudo em nossas esquecidas plagas caetés.

Mas nem mesmo este trabalho amoroso, dedicado à Maceió – e inflado de “ar intimista” (11) que inspira Fernando Pontes a escrever e expor, inclusive, boa poesia autobiográfica em texto de parede – o faz abrir mão da crítica cultural ao conservador espírito de alagoanidade. Daí derivar dessa crítica a sátira produzida pelo artista a uma das instituições mais caras e sagradas a tal espírito: a família no modelo tradicional. Por isso que, no catálogo da mostra, Edgard Oliva escreve com muita propriedade: “Neste grande canal de absorção dos índices e signos, o artista não vive apenas de lembranças do seu passado, mas, sobretudo, da transgressão, da transferência da informação e da contestação.” (11)

No entanto, tal crítica e tudo isso mais só é percebida quando notamos Fernando – um solteirão convicto que sempre preferiu criar a procriar – nos mostrando, em sua exposição, um álbum de fotografias da estrangeira e fictícia “família Trick” (“Truque”, em bom português, na certa para acentuar o estilo global e o valor imaginário desta) no qual, tal família, posa feliz para as suas fotos de viagem. E isto, tendo o poluído Riacho “Salgadinho” (uma metáfora heraclitiana da dimensão e qualidade de vida corrente em Maceió?) como um cenário turístico tão delirantemente idealizado que, ao se vê-lo, beira-se o realismo fantástico: “Um dia está verde, outro dia está preto, marron... It’s very Nice!”, observam-no maravilhados os Tricks, segurando coloridas bóias infláveis, ao lado de uma placa do IMA-AL, na qual se lê: “Impróprio para banho”.

O Salgadinho está representado por uma sinuosa linha vermelha (um riacho de sangue?) na quase desconhecida bandeira de Maceió, que foi criada, em 1958, pelo médico e folclorista alagoano Theo Brandão. Na mostra de Fernando Pontes esta informação nos é passada de modo subliminar e curioso, pois o artista-cidadão recriara a referida bandeira para denunciar, de modo poético, o “silêncio” conivente – mas para ele audível – da classe dirigente da capital alagoana. E ele o fez extirpando o brasão desta para escrever, com tinta-sprey encarnada, na sua recriação, a seguinte frase que substitui o símbolo do Salgadinho: “Não ouço mais os pássaros, só o silêncio dos governantes”. (4) Este enunciado, no entanto, não deixa de constatar também o “silêncio” (pior ainda por ser inaudível até mesmo para seus iguais) dos artistas e intelectuais da “cidade sorriso”, que, como Fernando, bateram “asas” em retirada para bem longe do Estado de Alagoas.

Mas, como observa com muita pertinência compreensiva o poeta palestino Mahmoud Darwich: “Voltar é uma referência ao passado. O retorno é uma idéia mítica, enquanto o fato de ir é uma atitude revolucionária.” (5) Ou seja, em outras palavras: “ir” à Maceió ao invés de “voltar” ou “retornar” para esta cidade, no caso específico de Fernando Pontes, é vivartisticamente revolucionário...

Por isso que, em compensação, no plano da memória coletiva local, o título da exposição (“Pássaros”) não só reforça o esquema representacional naturalista do imaginário nominalista da Alagoas-artística e da propaganda turística no Estado. Neste mesmo plano, aliás, ele faz também recordar aquela representação do Grupo Vivarte (1984-1985), como o “ninho” de uma passarada inovadora da “estética” no campo alagoano das artes plásticas. (10) E isto enquanto engaja Fernando Pontes, de modo pertinente e espiritual, na revolta emplumada do movimento vivartista: um “abstrato espaço” (9), na Maceió-artística dos anos 1980, onde seus participantes se auto-representavam como seres alados. Aqueles mesmos que sempre voam para longe de nós, como as primeiras fases de nossas vidas passageiras: “Pássaros pessoas / Pessoas pássaros [...] Pássaros passam / Passam pessoas” (11), escreve Fernando, em texto de parede, produzindo sentido para a sua exposição – enquanto acumula nesta, também, a função de poeta concretista.

Nos idos de 1980, Fernando Pontes não participou da efervescência cultural do Grupo Vivarte e da Cruzada Plástica. Radicava-se longe de Alagoas. No entanto, quando retornou à Maceió no início dos anos 1990, mais exatamente em 1992, para realizar então sua primeira individual na Pinacoteca Universitária, denominada “Instalação” (7), ele soube muito bem perceber e aproveitar o legado recente do vivartismo, dando-lhe, porém, um toque de contemporaneidade em arte que viria a impulsioná-lo ainda mais, no sentido da uma atualização estética mais radical da Alagoas-artística.

Foi a partir daí que a este seu vivartismo mais radical se conjuntaram, na Maceió-artística, outros nomes pioneiros da arte contemporânea em Alagoas, como, por exemplo: o de Ana Glafira, Dalton Costa, Daniela Aguilar, Delson Uchôa, Francisco Melo, Maria Amélia Vieira, Martha Araújo, Paulo Santo, Renata Voss, Ricardo Lêdo, Rogério Gomes, Suel, Viviani Duarte, Junior e Vera Gama, dentre outros. Todos estes artistas profundamente investidos, através de suas práticas e representações, num processo de transformação simbólica da cidade de Maceió numa espécie glocalizada de não-lugar, ou de cidade subjetiva, que poderíamos chamar de “Maceyork” (8): o único espaço de subjetivação coletiva, em Alagoas, capaz de acolher e abrigar a “cultura incompreendida” (1) destes alagoanos criativos – tornando-se aí um verdadeiro protetorado legitimador de tal cultura.

Mas voltando à mostra do artista aqui comentado. A palavra “Pássaros”, denominando a exposição, talvez de fato subjetivo tenha a função de evocar no espectador “cult” a lembrança do famoso filme “Os Pássaros” (The Birds), de Alfred Hitchcock, que estreou com sucesso estrondoso de bilheteria em 1963. Ou seja, no ano seguinte ao do nascimento de Fernando Pontes. O enredo do filme, hoje um dos clássicos inovadores da Sétima Arte, conta um episódio aterrorizante, acontecido na pacata cidadezinha de Bodega Bay, situada na Califórnia/EUA, na qual – coincidindo com a chegada de uma bela loira forasteira – seus habitantes emplumados se inquietam tão estranhamente ao ponto de se revoltarem, atacando os humanos daquela localidade insular.

Conhecendo-se bem Fernando Pontes, sempre tão inquieto do ponto de vista existencial (e, por isso mesmo, sempre ávido por polêmica e agitação cultural), qualquer analogia ou coincidência simbólica entre o enredo de “Os Pássaros” e o atual momento criativo de sua história de vida – jamais será por acaso. E isto é tão certo, que Fernando já pode dizer o mesmo que dissera, certa vez, o dramaturgo Tennessee Williams (cito-o de memória): “Os urubus tentaram desesperadamente despedaçar meus olhos, minha língua e minha cabeça... Mas nunca conseguiram chegar ao meu coração!



Fonte: Psicólogo e Pesquisador das Artes Alagoanas

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