Água para Elefantes e fogo do céu para homossexuais?
"Água para Elefantes" é o título de uma exposição de fotografias coloridas (11) e em preto-e-branco (23), com ares de mostra pós-modernista, que foi inaugurada no último dia 12 de setembro de 2011, na Galeria de Artes do Centro Cultural SESI Pajuçara.
Trata-se, mais exatamente, de um "ensaio" fotográfico no qual as recriativas Ana Luiza Bargham & Rafaela Meres produzem “uma releitura” do livro homônimo de Sara Gruen. Uma “releitura” na qual elas reencenam, de modo bastante convencional, o amor heterossexual de um jovem casal que vive intensamente esse amor em diferentes “cenários”. Dentre estes, um "circo" (que nunca pega fogo?).
“Donas de uma sensibilidade atenta às peculiaridades da imagem fotográfica”, escreve a competente curadora Carol Gusmão (2011), “as fotógrafas reencenam um trânsito criativo entre as peculiaridades do local e o caráter genérico da história de Gruen.” Uma narrativa meta-historiográfica, situada na grande depressão dos EUA nos anos 1930, que foi transformada em filme pelo roteirista Richard LaGravenese e pelo diretor Francis Lawrence.
A maioria dos “cenários” recriados por Bargham & Meres é a céu aberto. Aliás, a céu aberto e repleto de "estrelas cadentes" que encenam desejos espetaculares. Muitas destas “estrelas”, já no chão (45 no total), ainda irradiam um vivo amarelo-ouro a contrastar esteticamente com o cinza-esverdeado do piso de ardósia do corredor da galeria comercial, onde se encontra o Cine SESI. “O ensaio fotográfico também se particulariza por transitar entre a liberdade artística”, explica-nos ainda Carol, “e a direção de arte publicitária, comprovando o talento da dupla para a abordagem de temas complexos”. Uma abordagem que parece apelar àquela “mistificação contemporânea”, já criticada pelo terapeuta de casais Jean-Georges Lemaire (1989, p. 144-145), “que louva as virtudes da vida em casal como um remédio pessoal e social”.
Trabalhando na fronteira entre a psicanálise e a sociologia, Lemaire (1989, p. 145-146) diz categoricamente: “O casal esta vivo, o casal morde”. Para este psicólogo social francês (entrevistado por Annick Gwenaël, 1989), o casal jamais é a soma de dois indivíduos, e sim um “sistema” auto-regulado em si mesmo que, ao atravessar as “fases sucessivas” da história do zoológico humanizado elabora seu “duplo trabalho de luto e de idealização”. Pois este, segundo ele, “é um movimento dialético próprio do casal.” E se pergunta: “Será que sou otimista?”, asseverando em seguida: “De qualquer maneira pude observar o dinamismo extraordinário dos inúmeros reequilíbrios possíveis no interior de um casal, mesmo depois de anos de fracasso.”
O jovem casal da recriação de Bargham & Meres é formado por atores sociais de pele alvíssima, aparentando terem mais ou menos 21 anos de idade, que mais se parecem com aqueles pós-adolescentes que atualmente, em Maceió, se reúnem em longas mesas de pizzarias dos bairros nobres da cidade para cearem entre iguais, com elegância discreta, nos domingos à noite. Todos eles e todas elas, vestindo camisas padronizadas com o slogan, supostamente cristão (ou de um seleto clubinho muito fechado?), que diz: "Dê preferência à família"... Entendendo-se esta, é claro, como “a família” monoculturalista; ou seja: eurocêntrica, heterossexual e heteronormativa...
E é exatamente o que tende a fazer, pelo que tudo indica, o casalzinho heteroafetivo de “Água para Elefantes” enquanto a “dupla” de fotógrafas pós-modernistas transita indecisa “entre a liberdade artística e a direção de arte publicitária” (Carol Gusmão, 2011, grifos nossos). Esta última, pelo visto, comprometida exclusivamente com o monoculturalismo dominante. Daí Bargham & Meres não saberem (ou não quererem saber) por qual destas duas vias estético-ideológicas deve-se fazer “transitar” a criatividade autônoma de artistas mulheres e cidadãs.
Sendo assim, abaixo das duas vitrines que se situam do lado de fora, mas que são uma co-extensão do espaço galerístico interno do Centro Cultural SESI Pajuçara, onde também estão expostas algumas fotografias protegidas pelas fortes vidraças, encontramos respectivamente dispostas duas frases profundamente sugestivas; uma delas diz: “A vida é o maior espetáculo da terra”; já a outra, por sua vez, enuncia o seguinte: “Eu não sei se escolhi aquele circo, mas algo me diz que ele me escolheu.”
Diante de enunciados tão sugestivos e pós-modernamente capciosos, como esses, a população LGBT poderia perguntar: “Que “vida”? Que “espetáculo” (“maior” ou “menor”) é esse? Qual “terra”? “Terra” planeta ou latifúndio? E que “não” saber é esse sobre “algo”, ou alguma coisa, que nos escolhe ou é por nós escolhido? Por acaso está aqui se tratando do “destino” como aquela espécie de “genética do inconsciente” de que fala o psiquiatra húngaro Leopold Szondi (1989, p. 161), quando este define sua cartesiana “terapia do destino” como sendo a possibilidade de se “escolher para o homem um destino melhor do que aquele que ele está vivendo”? Afinal que “circo”, ou círculo, é esse? Por acaso é aquele que deve pegar fogo?
Estas perguntas - feitas supostamente como resposta crispada produzida pela população LGBT, que obrigatoriamente visita a exposição de Bargham & Meres ao ir a referida mostra de cinema -, para Linda Hutcheon (1991, p. 106 e 108), a grande teórica do pós-modernismo “poético”, se justificam pelo seguinte argumento: “[...] a arte da enunciação sempre inclui um produtor enunciativo, bem como um receptor da enunciação, e por isso suas inter-relações constituem parte relevante do contexto discursivo.” E acrescenta: “[...] o receptor de qualquer texto fica a mercê de um agent provocateur/manipulateur, o produtor. Esse é o irônico e problematizante jogo pós-moderno da enunciação e do contexto. [...] Somos obrigados a perceber que a linguagem tem um sentido dado pelo contexto, por aquele que fala (e escuta/lê), onde, quando e por quê. [...] estamos presenciando um renovado interesse estético e teórico pelas forças interativas envolvidas na produção e na recepção de textos. [...] Neles, o processo é tudo; não há textos ou produtos fixos, apenas a atividade do leitor como produtor e como receptor (Niesz e Holland 1984).”
Ora, posto isso e diante das 34 fotos de amor heteroafetivo tão romântico, expostas durante a 2ª Mostra [de cinema] da Diversidade, os homossexuais e seus simpatizantes podem pressupor o seguinte: não podendo viver sem encontrar em todos os lugares da Terra a “espetacular” confirmação de seu valor, o amor heterossexual do casal recriado por Bargham & Meres - um amor, sem dúvida, “escrito nas estrelas” -, nunca está seguro de si o bastante para ser independente da apreciação do mundo inteiro. Inclusive, portanto, da apreciação da população LGBT. Pois como diz o psiquiatra francês Jean-Georges Lemaire (1989, p. 145), autor do livro "O casal, sua vida, sua morte": "Evidentemente, a sociedade oferece, além do casal, outros espaços para a autoconfirmação". Dentre estes: "o trabalho, a arte, o trabalho social, a religião, o engajamento político..."
Depois do dia 15 de setembro corrente, quando estiver encerrada a 2ª Mostra (de Cinema) da Diversidade, que só durará seis míseros dias, o casal recriado por Bharan & Meres continuará a exibir espetacularmente o seu amor por bem mais tempo (de 12/set. a 8/out.) do que o tempo que durou a exibição dos filmes gays, no Espaço Cultural SESI Pajuçara. Pois também ali, o casal recriado pelas fotógrafas "pós-tudo" continuará a ser, como diria Lemaire (1989, p. 145) aplicando ao caso sua teoria, "o espaço mais propício para a satisfação narcisista." Para a satisfação narcisista de todos e todas, em Maceió, que não simpatizam com população multiculturalista LGBT.
Co-habitando assim com a 2ª Mostra da Diversidade: Cine SESI - e coincidindo sua inauguração com a abertura da 2ª Conferência Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos da População LGBT, na sua etapa metropolitana de Maceió, que por sinal acontecia no auditório da Casa da Indústria, entidade diretamente ligada ao referido espaço cultural -, a exposição fotográfica de Ana Luiza Bargham & Rafaela Meres parece confrontar-se deliberadamente, em nível simbólico e/ou semiótico, com estes dois eventos que foram socialmente construídos, segundo seus organizadores, "por uma Alagoas livre da pobreza e da homofobia". (Cf. cartaz do evento). Da “pobreza” inclusive de espírito... acreditamos.
Dizemos "em nível simbólico e/ou semiótico" pelo clima muito sutil de guerra cultural fria que a exposição fotográfica da “dupla” de recriadoras logo sugere a quem vai à referida mostra de cinema LGBT, e, aproveitando o ensejo, visita a exposição com sensibilidade, senso crítico e olhos para ver... E foi exatamente isso o que nós vimos. E esta nossa visão, estava fundamentada na noção sociológica, de Pierre Bourdieu (1996), de que todo espaço social "é um lugar geométrico dos contrários". Portanto, de interações simbólicas nas quais se definem, sócio-historicamente, posições e oposições de todos os tipos que podem e devem ser analisadas em detalhe.
Tais posições e oposições, na visão de Michel Foucault (entrevistado por Pol-Droit, 2006, p. 95), seriam indicativas de “um poder” que, além de ter sido muito negligenciado pelos historiadores, vai também muito longe penetrando profundamente uma “rede capilar” muito cerrada que o veicula. Tal poder, segundo ainda Foucault, nos torna a todos não somente seu alvo; mas também seu transmissor, ou o ponto de onde emana um certo poder. Mais exatamente um poder “simbólico”, como o especifica e o define Bourdieu (1989, p. 7-8), que “é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é completamente ignorado, portanto, reconhecido”. Um poder que “é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.”
Por isso, as "estrelas caídas" e fixadas no piso do corredor da galeria com material de plotagem, não só fazem lembrar a canção finalista "Chão de Estrelas", de Silvio Caldas & Orestes Barbosa (1935), como também sugerem ali, naquela exata circunstância histórica, um fantasmagórico bombardeio celestial como o que varreu Sodoma e Gomorra da face da Terra... Reações cognitivas como essa - diante dos “domínios da arte contemporânea” e sobretudo da “direção de arte publicitária” (Gusmão, 2011) que são, em Alagoas, apoiadas por instituições conservadoras e de ideologia pretensamente cristã (ver o banner azul celeste) - não são, nem de longe, uma super-interpretação delirante... Pois o acaso, nestes casos, jamais é por acaso. Daí a pergunta que estruturamos para intitular este artigo.
Além do mais, como se sabe por Linda Hutcheon (1991), as obras pós-modernas jamais reprimem o processo de produção ao enfatizarem o papel do receptor. “Conforme [Rolland] Bartes afirmou”, nos diz ainda esta crítica defensora do pós-modernismo na “história/teoria/ficção”, “pode perfeitamente estar morto o conceito de artista como fonte única e originante do sentido final e autorizado.” (Hutcheon, 1991, p. 107). E complementa: “Para ativar o processo dinâmico de sentido, a enunciação exige mais do que somente o texto e o receptor (Metscher 1972 e 1975). O texto tem um contexto, e talvez a forma passe a ter sentido tanto por meio da inferência do receptor em relação a um ato de produção quanto por meio do próprio ato de percepção. Isso se aplicaria sobretudo aos irônicos textos pós-modernos em que o receptor realmente pressupõe ou infere uma intenção de ser irônico. Se a arte for considerada como produção histórica e como prática social, então a posição do produtor não pode ser ignorada, pois entre o produtor (inferido ou real) e a audiência existe um conjunto de relações sociais que tem o potencial de ser revolucionado por uma mudança nas forças de produção que podem transformar o leitor num colaborador, e não num consumidor (Eagleton 1976, 61).” (Linda Hutcheon, 1991, p. 111)
Mas voltando ao Espaço Cultural SESI Pajuçara:
Reforçando então esse caldo monocultural que ali também mistura teatro com história de amor heterossexual e fé cristã, outro jovem e belo casal de atores da Companhia Maria Carrascosa, com feições típicas de brasileiros nordestinos, faz propaganda “cultural”, num micro-cartaz com fotos impressas em preto-e-branco, do espetáculo “DEUS”. Um “espetáculo” que ainda iria estrear nos dias 17 e 24 de setembro corrente, às 19 horas, no Teatro do Colégio Marista.
O que na certa explica, de modo tanto hermético quanto sintomático, as possíveis alusões simbólicas à Santíssima Trindade judaico-cristã, linguajadas por Bargham & Meres através dos seguintes elementos visuais: os três montes de feno prensado, as três cores (branco, amarelo ocre de ferro e vermelho tomate) da lona estampada com linhas (todas estas sempre retas) que se estende do teto ao chão e as três distintas “estrelinhas” de cinco pontas, feitas de papelão forrado com purpurina dourada, que se destacam fixadas na lona. Aliás, não só: no sofisticado banner, filipetas e out-doors - com ilustração concebida em esquema double bind (i.e., “duplo condicionamento” [Gregory Bateson citado por Paul Watzlawick no jornal Le Monde de 27/11/1983) - que anunciam “Água para Elefantes”... também se pode verificar, em aéreo movimento, três “bolas de fogo” de um malabarista em ação. Sem dúvida, um “agent provocateur/manipulateur” (Hutcheon, 1991, p. 108). Ou seria um pirotécnico incendiário que nunca mostra o próprio rosto? (Ver banner e/ou outdoor da exposição)
Esta série de “sinais ocultos” (para usar aqui uma expressão de Szondi [1989, p. 159]), só provam infelizmente que, em Alagoas, nem mesmo nos “domínios da arte contemporânea” saímos da Idade Média.
Após essas observações, poderíamos formular aqui, à guisa de conclusão, duas perguntas a serem dirigidas a população LGBT de Alagoas: por que os organizadores da 2ª Mostra da Diversidade não ocuparam, inteiramente, todos os espaços de expressão criativa pertencentes ao Centro Cultural SESI Pajuçara durante a referida mostra? Será que em Alagoas não existem artistas gays, nem simpatizantes, que abordem (ou possam abordar, pelo menos para estas ocasiões!) os temas LGBT nas diversas artes?
Ora, como bem já dissera o “pirotécnico” Michel Foucault (entrevistado por Pol-Droit, 2006, p. 69 e 99): “É preciso dar o máximo de oportunidades ao impossível e dizer-se: como esta coisa impossível efetivamente aconteceu?”
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo artístico. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: DIFEL & Bertrand Brasil, 1989.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
LEMAIRE, Jean-Georges et al. O indivíduo: entrevistas do Le Monde. São Paulo: Ática, 1989. Entrevista concedida a Annick Gwenaël em 14 de agosto de 1983.
POL-DROIT, Roger. Michel Foucault: entrevistas. São Paulo: Graal, 2006.
SZONDI, Leopold et al. O indivíduo: entrevistas do Le Monde. São Paulo: Ática, 1989. Entrevista concedida a Alexandre Szombati em 18 de abril de 1982.
WATZLAWICK, Paul et al. O indivíduo: entrevistas do Le Monde. São Paulo: Ática, 1989. Entrevista concedida à Guitta Pessis-Pasternak em 27 de novembro de 1983.
* [1] Mestra em Sociologia pela UFAL e militante da Liga Brasileira de Lésbicas.
* [2] Acadêmica do último ano do curso de Direito na FAMA.
* [3] Mestre em psicologia social pela PUC-SP e pesquisador no campo artístico alagoano.
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