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A teimosa mulher de Garça Torta

12:41 - 02/10/2007 Roberto Amorim
Muitas vezes perco o sono pensando nisso
Muitas vezes perco o sono pensando nisso

Edna Constant costuma se definir como “uma figura quixotesca”. Ela se refere ao entusiasmo e à determinação do célebre personagem, criado no Século XVII pelo genial escritor espanhol Miguel de Cervantes. E tem razão. Aos 74 anos, essa mulher – de voz mansa e olhar acolhedor –, ainda aceita com alegria a trabalhosa missão de, praticamente sozinha, manter aberta a democrática porta da Casa da Arte, endereço mais famoso do praeiro bairro de Garça Torta.

 

 

Numa conversa em tom de desabafo, dona Edna – que não gosta de ser chamada de senhora – fala sobre como vem conseguindo arrebanhar dezenas de crianças e adolescentes para o universo artísticote, a falta de dinheiro e de gente para continuar a empreitada e a incerteza do futuro da Casa da Arte quando não estiver mais sob os seus cuidados. Confira os principais trechos da entrevista.

 

Como a sua casa se transformou na Casa da Arte?

Garça Torta sempre foi um lugar cheio de artistas, de hippies e suas criações. Eles começaram a pedir a sala para se reunir e expor as suas obras. Aos poucos tomaram conta de toda a casa e tive que construir um anexo nos fundos para morar. Por aqui já passaram, praticamente, todos os artistas alagoanos, gente de outros estados e muitos estrangeiros. Hoje, os nossos maiores artistas são crianças e adolescentes da própria comunidade. Eles são a matéria-prima que abastece a Casa da Arte.

Imaginava que esse caminho seria de muito trabalho e pouco dinheiro?

As coisas foram acontecendo naturalmente. Nunca pensei na Casa da Arte como um lugar de vender quadros e ganhar dinheiro. Aqui é um espaço onde se produz cultura e educação com o objetivo de realizar reformas sociais. Trabalhamos muito e de forma séria, e esse tipo de serviço não rende dinheiro no nosso País. Colho apenas alegria e muito respeito dentro e fora de Alagoas.

 

Até Dom Quixote precisou da ajuda de Sancho Pança. Como vem dando conta de tudo sozinha?

Todo o meu tempo e dinheiro são para manter a Casa da Arte aberta. Não reclamo não, o sonho é meu! Mas é claro que precisamos do outro. Quem quiser se associar e dar apoio será sempre bem-vindo. Em vários momentos conto com a ajuda de amigos e voluntários no atendimento às crianças. Existe até uma Sociedade dos Amigos da Arte na Espanha.

 

E no dia-a-dia?

Eu não gostaria de estar sozinha porque eu não sou a dona da Casa da Arte. Uma casa como essa não tem dono; ela é de todos, é de Alagoas. Gostaria que mais pessoas percebessem isso e dessem as mãos espontaneamente.

As coisas não melhoraram com a transformação da casa em ponto de cultura? Inicialmente foi um alívio. Compramos instrumentos musicais e aumentamos as aulas de circo, de teatro, de artes plásticas e de idiomas. Muitos compromissos não foram cumpridos: até hoje espero um kit multimídia e, desde agosto do ano passado, não recebo um tostão do Minc. Voltamos à estaca zero. Eu e a minha família estamos bancando tudo de novo, por isso diminuímos as atividades, mas não vou parar de jeito nenhum.

Não poderia ir em busca de ajuda em outros lugares?

Não tenho habilidade política nem idade para dar conta da burocracia exigida para fazer parte dos projetos e programas que existem por aí, e isso tem atrasado o avanço da Casa da Arte. Preciso do auxílio de pessoas nesse sentido, que elas entendam o tamanho e a importância do trabalho realizado aqui e me orientem sobre onde e como conseguir ajuda.

 

E o futuro da Casa da Arte?

 

Quando eu for embora, gostaria que continuasse como fundação, que nada mudasse. Não é por vaidade nem egoísmo, mas pelo compromisso com as crianças, que vêm em busca de arte e educação. Mas não tenho garantia nenhuma... Muitas vezes perco o sono pensando nisso.

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